Além das agremiações com cordas, movimentos fora dos circuitos oficiais ganham força nesta folia
Quando as vendas dos blocos Largadinho e Blow Out abriram para o Carnaval de 2019, poucos dias após o fim da folia do ano passado, o professor e jornalista Eder Luis Santana, 36 anos, não pensou duas vezes: aproveitou para pagar em 10 prestações. Sem nem sentir, em suas palavras. No mês passado, decidiu comprar mais um passaporte: um dia de Coruja, com Ivete Sangalo.
“Sou louco por Carnaval, mas, durante muitos anos, trabalhei na folia. Chegava a ter dupla jornada. Era muito trabalho e pouca curtição. Daí, nos últimos cinco anos, decidi que queria aproveitar mais a festa”, diz ele, que consegue se dividir entre os blocos e pipocas como a de Os Mascarados e de Armandinho, Dodô e Osmar. “O que me leva a sair nos blocos é estar com pessoas que eu gosto”, completa.
Seja para estar entre amigos, seja para acompanhar um ídolo, muita gente fez como Eder Luis e garantiu os abadás com antecedência. Em 2019, a famigerada crise dos blocos – que chegou ao auge em 2017, quando tradicionais nomes como Cheiro, Yes e Nana saíram de cena – parece ter dado uma trégua. Mais do que isso: as principais centrais de venda já contabilizam aumento de até 40% em relação ao mesmo período do ano passado.
Esse é justamente o caso da San Folia, que reúne as vendas dos blocos Blow Out, Coruja, Crocodilo, Largadinho e O Vale, puxados pelas principais estrelas femininas da música baiana, como Daniela Mercury, Ivete Sangalo, Claudia Leitte e Alinne Rosa. Quem quiser sair com Ivete na segunda-feira de Carnaval e com Claudia na terça, inclusive, já não consegue mais. As fantasias já esgotaram, como adiantou o Me Salte, canal de notícias LGBTQ+ do CORREIO.
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| Claudia Leitte, que comanda o Blow Out e o Largadinho, já tem um dia esgotado |
De acordo com o empresário André Gagliano, um dos sócios da San Folia, o Largadinho de Claudia esgotou há uma semana; o Coruja de segunda-feira com Ivete, há quase três semanas. A previsão é de que os outros blocos sigam o mesmo caminho nos próximos dias.
Para ele, o crescimento das vendas está diretamente relacionado à melhoria nos serviços.
“Os blocos estão mais cheios, mas não estão mais apertados. Eles têm abadá bonito, de qualidade, decoração melhor no trio. O banheiro do carro de apoio é unissex, então não tem mais fila; colocamos selo de segurança para verificação. A gente se coloca muito como o público”, enumera Gagliano.
Serviços
O investimento aumentou, de forma geral. Se, para a confecção de um abadá, gastava-se um valor 'x' dois anos atrás, ele estima que o gasto desse ano seja de '3x'. Ele acredita, no entanto, que os blocos da San Folia não sentiram a crise – o próprio Blow Out desfilou, pela primeira vez, em 2017, no auge dos problemas para os carnavalescos baianos.
O investimento aumentou, de forma geral. Se, para a confecção de um abadá, gastava-se um valor 'x' dois anos atrás, ele estima que o gasto desse ano seja de '3x'. Ele acredita, no entanto, que os blocos da San Folia não sentiram a crise – o próprio Blow Out desfilou, pela primeira vez, em 2017, no auge dos problemas para os carnavalescos baianos.
“Nunca vi Claudia Leitte esgotar faltando 20 dias para o Carnaval, Ivete esgotar faltando um mês. Você vê que está bom assim”, resume o empresário. A maioria dos foliões é turista. Cerca de 80% deles vêm de cidades com São Paulo, Rio de Janeiro, Recife e Belo Horizonte, onde o grupo promoveu eventos ao longo do ano.
O professor Eder Luis Santana está entre os 20% - os baianos. Para ele, o gosto pelas agremiações começou em família. Ainda no fim da década de 1990, estreou no Papa Léguas com a mãe, o pai e alguns tios e primos. Depois, continuou saindo com amigos.
“Fui gestado em blocos de Carnaval. Independente de estar no bloco ou na pipoca, o sentido é de estar sempre cercado de pessoas que te fazem sentir bem, seguindo um artista que você sente uma proximidade com a música”.
Já o técnico em química e professor Gerônimo Lopes, 37, se viu comprando somente abadás pela primeira vez. Com sete meses de antecedência, ele e um grupo de amigos decidiram deixar os camarotes de lado e desfilar no Blow Out, no Largadinho e no Vale.
“No camarote, é interessante porque tem comodidade, banda boa, ar-condicionado, mas a gente perde o espírito do Carnaval, aquela coisa de rua, do contato”, diz ele, antes de ressaltar o benefício da compra antecipada.
Desde que decidiu curtir o Carnaval de Salvador pela primeira vez, em 2012, tinha medo de encontrar um cenário de brigas e confusões. “Só que, no primeiro ano, vim para três camarotes, saí na pipoca e em um bloco e vi que não era isso. Só vi uma briga entre duas mulheres na época e mais nada”, lembra.
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| Ausente no Carnaval de 2018 por conta da gravidez das gêmeas Marina e Helena, Ivete esgotou um dos dias de bloco há três semanas |
Mais baianos
Na Central do Carnaval, que oferece blocos como como Camaleão, Vumbora, Nana, Inter, Me Abraça e Filhos de Gandhy, as vendas também aumentaram. De acordo com o proprietário da central, Joaquim Nery, a empresa está fazendo acompanhamento diário e comparando com as mesmas datas do ano passado. O resultado foi animador: o crescimento fica entre 15% e 20% para o mesmo período de 2018.
Na Central do Carnaval, que oferece blocos como como Camaleão, Vumbora, Nana, Inter, Me Abraça e Filhos de Gandhy, as vendas também aumentaram. De acordo com o proprietário da central, Joaquim Nery, a empresa está fazendo acompanhamento diário e comparando com as mesmas datas do ano passado. O resultado foi animador: o crescimento fica entre 15% e 20% para o mesmo período de 2018.
O perfil dos compradores, porém, é diferente dos da San Folia. Enquanto na San, a maioria dos foliões é de turista, os baianos e soteropolitanos são os principais clientes da Central do Carnaval. Mesmo assim, já é possível notar um aumento das vendas entre os turistas internacionais.
“Vendemos algo em torno de 40% para os turistas nacionais, mas houve um grande aumento de estrangeiros, que era algo que a gente sentia falta. O percentual ainda é muito pequeno – representa menos de 5% do total -, mas, em outros anos, era praticamente nada”, reflete Nery.
A maioria dos clientes estrangeiros vêm de países como Argentina, Estados Unidos e Israel.
Além disso, ele também acredita que as formas de pagamento têm contribuído para o desempenho das vendas. “A Central é um mosaico grande. Estamos com nove camarotes, 14 blocos. Tem Carnaval para todos os bolsos. Tem bloco saindo a partir de R$ 170 que pode ser dividido em 10 vezes. É acessível para todo mundo”. Por R$ 170, é possível comprar abadás do bloco Inter, que desfila com Chiclete com Banana no Campo Grande, no domingo.
Os campeões de vendas são os blocos puxados por Bell Marques – o Camaleão e o Vumbora. Porém, outros como o Me Abraça (Durval Lelys), Nana (Léo Santana) e Eva (Banda Eva) também andam entre os preferidos. Para Joaquim Nery, diferentes fatores contribuíram para as vendas irem bem.
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| Na Central do Carnaval, os blocos liderados por Bell Marques são os preferidos |
Há desde uma recuperação nacional do axé music – com artistas baianos participando de mais eventos de Carnaval fora de época pelo país –; e a requalificação pela qual Salvador passou nos últimos anos. “A novela O Segundo Sol (TV Globo), para a gente, foi muito boa, porque mostrou cenas belíssimas em Salvador e usou o axé music, a baianidade. Tudo isso ajudou a vender”, explica.
Um dos que já comprou o Vumbora e o Camaleão foi o corretor de imóveis Adriano Borges. Em maio, ele e a esposa adquiriram os abadás para seguir atrás do trio de Bell Marques. Adriano acompanha Bell há 33 anos – não só em Salvador, como em qualquer micareta que ela faça pelo país.
Para ele, o segredo da alta procura nesses blocos é justamente o perfil do cantor. “Bell tem uma energia positiva que só ele tem. Sem ele, na minha opinião, o Carnaval acaba”, diz o corretor, que, nos dias em que não está nos blocos, escolhe ficar nos camarotes onde há shows de Bell. “O gosto por Carnaval veio do meu pai, que já é falecido desde 1995. Ele saía com Bell também e me levou”.
Lei de mercado
O presidente do Comcar, Pedro Costa, está entre os que atribuem o crescimento das vendas dos blocos a fatores como a promoção da cidade e do estado. A divulgação de eventos do verão de Salvador também teria feito diferença.
O presidente do Comcar, Pedro Costa, está entre os que atribuem o crescimento das vendas dos blocos a fatores como a promoção da cidade e do estado. A divulgação de eventos do verão de Salvador também teria feito diferença.
“Eu diria que estamos em Carnaval desde o Festival de Verão. Depois, tivemos um Réveillon espetacular que trouxe muito turista para cá. Sem contar a novela da Globo, que divulgou Salvador e suas belezas culturais, ecológicas e históricas no horário nobre”, enfatiza.
Para o secretário municipal de Cultura e Turismo, Cláudio Tinoco, existe um sentimento de identidade de muitos foliões com os blocos. Em 2017, a prefeitura chegou a fazer uma pesquisa qualitativa em cidades fora da Bahia que chegou a conclusões como essa. Na avaliação dele, há um fator de preservação dos blocos promovido pela própria administração municipal que é de montar a programação de trios sem cordas somente depois que o Comcar anuncia a lista de atrações de cada circuito.
“De fato, existiu uma crise. De fato, diminuíram os blocos com cordas e um exemplo objetivo é a quinta-feira no circuito Barra-Ondina. Três anos atrás, tinham uns quatro blocos. Esse ano, não tem nenhum. Por isso, introduzimos o Furdunço na quinta-feira na Barra e contratamos trios sem cordas. Mas esse movimento do mercado beneficia os blocos que permaneceram”, avalia.
Se o período de comparação entre o número de blocos for maior, a diferença fica ainda mais visível. Dez anos atrás, em 2009, pelo menos 13 blocos com cordas, comandados pelos principais artistas da música baiana, desfilaram no circuito Dodô (Barra-Ondina), na quinta-feira daquele Carnaval. Este ano, a lista divulgada pelo Comcar não traz nenhuma agremiação nesses moldes para desfilar no mesmo dia e no mesmo circuito.
Segundo Cláudio Tinoco, as agremiações que resistiram à crise conseguiram permanecer por oferecerem bons serviços.
“Por essa lei do mercado, você diminui a oferta e aumenta uma demanda. Esse crescimento (das vendas) pode ser uma consequência dessa regra de mercado para aqueles que permaneceram com sua formatação de bloco tradicional", aponta.
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Salvador




