
O Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) teve 5,1 milhões de inscritos em todo o Brasil na sua última edição. Apesar do método de seleção para o ensino superior ainda não ser o modelo perfeito e inclusivo pelo qual a sociedade anseia, o Enem se mostrou ao longo dos anos bem mais eficiente do que os antigos vestibulares, principalmente no acesso dos estudantes mais pobres às universidades públicas.
O ministro da Educação Abraham Weintraub, no entanto, parece não entender para o quê serve o Enem. Ou mesmo para o quê serve o acesso à educação. Essa semana, em reunião no Senado, o titular do MEC afirmou que ‘apesar de existirem injustiças, o exame não foi feito para corrigir injustiças, mas para selecionar’.
A resposta do ministro foi dada depois que senadores observaram que, em função da pandemia de coronavírus, os estudantes das escolas públicas ficariam em desvantagem em relação àqueles das escolas privadas, que estão tendo aulas online, justamente porque nem todos os alunos mais pobres têm computador ou qualquer dispositivo que permita o estudo remoto.
A covid-19 fechou as escolas desde março e sem as aulas presenciais, todo um contingente de estudantes será prejudicado. Por conta disso, o Senado quer o adiamento das provas do Enem deste ano. Weintraub, no entanto, se recusa a suspender o exame alegando que os efeitos do coronavírus já terão se dissipado em novembro, quando devem ocorrer as provas tanto presenciais – nos dias 01 e 08 – quanto digitais – nos dias 22 e 29.
O otimismo do ministro é necessário no seu papel de ocupante de cargo público. Ele precisa mesmo passar esperança para a população confinada e impaciente para que a vida volte ao curso rotineiro. No entanto, otimismo não vai resolver uma situação prática, a da reposição das aulas suspensas há dois meses e sabe-se lá por quanto tempo ainda para a frente.
O Enem é uma prova grande, demorada, exaustiva e complexa. De fato, ela testa todo o conhecimento que o estudante acumula na vida acadêmica. Mas, ainda assim, o ano do exame é usado para revisões específicas, para enfatizar a importância de pegar todo esse conhecimento acumulado e correlacionar assuntos. Se fosse tão simples apenas lançar mão do acervo de disciplinas fixadas na memória ao longo dos anos, não seria necessário fazer revisão e se preparar para a prova.
Logo, as aulas fazem diferença e reposições às carreiras não vão dar conta de preparar adequadamente quem não pode estudar por não ter computador, smartphone ou mesmo uma biblioteca funcionando perto de casa, já que tudo o que não é essencial – basicamente farmácia, hospital e supermercado – não está aberto durante a quarentena.
As inscrições para o Enem 2020 começam na segunda-feira, 11, e vão até 22 de maio. Na reunião com o Senado ficou decidido que outro encontro com o MEC ocorrerá em agosto, para decidir sobre um possível adiamento ou não das provas.
No encontro da última quarta-feira, Weintraub cometeu outro equívoco e confundiu oportunidade com inteligência. Na visão dele, o Enem seleciona ‘os mais inteligentes’ dos ‘menos inteligentes’. Mas, a crise do coronavírus só mostra que na verdade, a prova vai acabar virando exatamente o que eram os antigos vestibulares, uma disputa entre quem tem mais condições financeiras de estudar e quem não tem. E nesse tipo de mérito, não há justiça.
Tags
Educação