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02 julho, 2020

'A segurança é Deus', diz dono de carro crivado de balas no Parque Jocélia



Ao olhar o estado do carro, um Fiat Siena comprado à custa de várias economias, o proprietário parecia não acreditar: “É duro ver algo que foi adquirido com muito suor deste jeito. A nossa única segurança é Deus e mais ninguém”. O desabafo aconteceu quando ele acompanhava o trabalho dos peritos do Departamento de Polícia Técnica (DPT ) no veículo, crivado de balas na madrugada de terça-feira (30), quando duas facções se enfrentaram no Parque Jocélia, no bairro de Sussuarana. 

O proprietário, que preferiu não revelar o nome, disse que dependia do laudo do DPT para acionar o seguro – veículo sofreu mais de 20 perfurações que atravessam vidros, latarias e até pneus.  


“Só depois da avaliação da perícia para saber se o carro será perda total ou não. Até então, estou no prejuízo porque o meu carro é também meu instrumento de trabalho”, disse ele. 


O episódio da madrugada de terça tão cedo irá sair da memória do morador. “Não vi aquilo antes. Isso nunca houve aqui. Foram muitos tiros. Quase uma hora de tiro”, declarou. Com medo de novos confrontos, alguns moradores abandonaram seus imóveis. Questionado se faria o mesmo, o dono do carro disse que, apesar da situação, não. “Não devo nada a ninguém. Sou digno da palavra de Deus, não tenho outro lugar para ir e por isso vou ficar. Não tem jeito”, disse.

O carro estava estacionado na Praça da Independência, onde passou a funcionar nesta quarta-feira (01) a Base Móvel com 60 policiais militares, que ficarão no local por tempo indeterminado. 

O reforço policial no bairro ocorreu após uma madrugada de terror, onde os assobios das balas de fuzil perfuravam o silêncio no bairro de Sussuarana. Ao mesmo tempo, outros projéteis encontraram carros, janelas e portas por volta das 3h30 da última terça-feira (30). Temendo que as paredes não suportassem o arsenal de duas facções que disputam o controle do tráfico de drogas no Parque Jocélia, cada uma com cerca de pelo menos 20 homens, moradores permaneceram deitados no chão por quase uma hora. Foi uma madrugada de terror.

A certeza de que o perigo havia passado só veio com o raiar do dia. “As pessoas só saíram de suas casas meia hora depois que um dos grupos disse: ‘joga a granada pra poder se retirar que o dia está amanhecendo’. Estamos aterrorizados. Tem gente aqui que está abandonado sua casa e indo às pressas morar com parentes ou indo pagar aluguel. Suplicamos por ajuda”, disse um morador entrevistado.

O retrato da madrugada de terror vai além dos traumas psicológicos. Segundo os moradores, pelo menos 10 carros foram atingidos pelos disparos – em um deles, há marcas de 15 perfurações. Sobre as declarações dos moradores, o coronel Paulo Coutinho, comandante do Policiamento da Região Central da Polícia Militar, diz que o que ocorreu no Parque Jocélia foi uma “situação pontual” entre as fações Bonde do Maluco (BDM e a Tropa do A).

“Foram muitas ações da PM no local. Houve uma situação pontual na madrugada. O policiamento estava no bairro, mas eles (criminosos) aproveitaram um momento em que as viaturas precisaram sair do Parque Jocélia. Eles têm informantes. Houve um conflito do BDM com a Tropa A. Mas a PM está para fazer a mediação e o enfrentamento, se necessário, para dar a paz à sociedade”, declarou o coronel.

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