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Imagem negra de Iemanjá resgata características ancestrais e homenageia Rainha em centenário: ‘Riqueza que o colonizador roubou’

    Foto: Cristian Carvalho
 

Obra é resultado de pesquisa e produção especializada em devolver representatividade a orixás

Além de marcar o centenário de homenagens à Iemanjá em Salvador, a edição deste ano da festa da Rainha do Mar também celebra a estreia de uma imagem que reflete representatividade. Negra e com tranças, a escultura tem o objetivo de resgatar as características ancestrais da orixá mais cultuada das Américas e externalizar essa beleza.

A obra foi concluída e entregue na última semana, após uma produção baseada em pesquisas de um especialista, e, como a própria imagem mostra, vai de encontro à mulher branca, magra, com cabelos lisos e vestido azul que vem sendo cultuada como Iemanjá ao longo dos últimos anos.

“A gente tem o entendimento de que os processos culturais, sociais, históricos, são construídos. A colonização construiu essa imagem branca. As pessoas têm tantas questões quando se fala sobre a religião de matriz africana, que colocam nesse lugar de inferioridade. Isso foi uma política que foi construída ao longo dos anos”, disse a presidente do Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (Muncab), Cintia Maria.

Foto: Cristian Carvalho

Assim como as outras esculturas da Rainha do Mar, a peça, que tem 1,40 m de comprimento, foi posicionada na Colônia de Pescadores Z-01, no bairro do Rio Vermelho, onde a celebração acontece desde 1923. Ela também estará disponível para saudação nesta quinta-feira (2), Dia de Iemanjá.

Em entrevista, os idealizadores do projeto definiram a imagem como a reafirmação dos laços com os povos originários que trouxeram Iemanjá da África para as Américas, e reconhece que a orixá mais popular desse continente é africana e negra.

“A gente poder materializar para comemorar 100 anos é sem duvidas uma grande reparação história para a cidade, que é a mais negra fora do continente africano, mas também para o continente africano. Falar de Iemanjá é relembrar 10 mil anos de história antes de cristo. É devolver toda a riqueza e que o colonizador roubou”, detalhou o artista plástico amazonense que assina a peça, Rodrigo Siqueira.

A iniciativa é fruto de uma parceria da Colônia Z-01, que deu início às homenagens à Iemanjá, com o Muncab, que também fica localizado em Salvador e é dedicado à reunião e à valorização dos artefatos e dos registros da cultura afro-diaspórica no Brasil.

Foto: Cristian Carvalho

A ideia nasceu de um desconforto sentido por Cintia Maria ao perceber que não havia representação negra à altura da orixá na festa. “A primeira vez que eu fui foi em 2016. Eu fiquei muito impactada quando eu vi todas aquelas imagens brancas e pouquíssimas negras. Levando em conta que é uma orixá africana, isso me impactou e me fez questionar” , relatou.

A missão foi dada a Rodrigo pelo trabalho já desenvolvido na área há alguns anos em comunidades de terreiro da capital baiana e região metropolitana. E, para além da pesquisa, a elaboração da escultura foi representativa para o artista pela proximidade com a família dele, como revelou.

“Para mim, a felicidade se torna ainda maior porque é a orixá da minha família sanguínea, meu avô, minha mãe. Devolvo para Iemanjá não só pelo que ela já fez pela minha família biológica, como a de santo e como pelo o mundo. Que Iemanjá possa nos dar tão qual tem areia na praia e estrelas no céu. Ela é realmente uma grande mãe”.

Foto: Cristian Carvalho

A escultura foi confeccionada em estrutura metálica combinada com resina de vidro e de mármore, e ainda agrega na composição conchas e búzios naturais importados da Indonésia. Um material que foi escolhido para resistir à ação do tempo.

“O material em si tem um baixo custo e uma durabilidade longa, até porque a gente está em uma cidade contornada pelo mar. A fibra dribla bem essa questão e o custo orçamentário é bom. Se a gente fosse ter essa peça em bronze ficaria muito alto o custo, mais de R$ 100 mil. Para além da escultura, tem a produção e o translado”, contou Rodrigo.

Por enquanto, a obra é mais uma a ser homenageada na colônia e não deve substituir as demais, como explica Cintia. “Depende da colônia de pescadores. Eles que cuidaram desse culto durante todo esse tempo. Com toda repressão, eles conseguiram manter esse culto por 100 anos. Um culto que é realizado em via pública. Isso é histórico. A gente só está conseguindo fazer isso por causa desses pescadores. Então, só cabe a eles essa decisão”.

Tradição centenária

Foto: Cristian Carvalho

A tradição de entregar presentes à Iemanjá começou quando um grupo de pescadores decidiu consultar os búzios para entender a falta de peixes no mar. Na época, eles foram orientados a pedir ajuda da orixá e a presenteá-la. Desde então, devotos se dirigem às águas para entregar suas oferendas à Rainha do Mar. A Colônia Z-01 também completa 100 anos de existência em 2023.

Já a imagem de Iemanjá branca tem raízes no processo de colonização do Brasil, que impôs uma visão de superioridade europeia sobre os povos indígenas e africanos, segundo explicou o Muncab. Um processo similar ao embranquecimento da imagem de Jesus Cristo, que também passou pela sobreposição ao longo dos séculos da dominação política e cultural europeia ao redor do mundo.

A dinâmica brasileira provocou um processo de sincretismo religioso em que os escravos e seus descendentes aproveitavam as datas de festejos de santos católicos para cultuar seus orixás, usando inclusive imagens desses santos. Iemanjá, mãe de grande parte dos orixás, foi sincretizada com várias santas, como Nossa Senhora das Candeias e Nossa Senhora dos Navegantes, ambas celebradas em 2 de fevereiro, e Virgem Maria, a mãe de Jesus.

A massificação da imagem de Iemanjá branca, representada em estátuas de gesso, no entanto, começou no início do século passado. Apesar do enorme debate sobre o empretecimento das divindades africanas, a representação ainda predomina nos templos de Candomblé e da Umbanda no Brasil.

IBahia

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