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Mensagens revelam que PMs matavam criminosos que não pagavam propina na Baixada Fluminense

 

Em fevereiro de 2020, o sargento Adelmo Guerini foi transferido para o batalhão de São João de Meriti, na Baixada Fluminense, o 21º BPM. Dias antes de começar a bater ponto da nova unidade, Guerini perguntou, pelo WhatsApp, a um colega de farda que já trabalhava lá, o também sargento Oly Biage, como era a rotina da região. “Só é fraco $. Pegar alguém é merreca”, respondeu Biage, referindo-se, segundo o Ministério Público do Rio (MPRJ), às propinas negociadas pelos policiais para libertar criminosos que haviam capturado.

“Mas o coronel quer caixão”, retrucou Guerini — uma menção ao tenente-coronel André Araújo, que também estava chegando ao batalhão. Biage encerrou a conversa: “Vai matar muito lá”. Na primeira semana de serviço no novo quartel, Guerini e seus companheiros de patrulha, de acordo com a investigação do MPRJ, mataram um homem e desviaram R$ 2,7 mil apreendidos com ele.

 


Mensagens mostram que traficante foi morto porque não pagou propina
 

Mensagens de texto e áudios extraídos do celular do sargento — e obtidos pelo GLOBO — mostram como corrupção e letalidade policial andam de mãos dadas na Baixada Fluminense. Entre fevereiro e abril de 2020, Guerini mencionou, em conversas com colegas de farda ou informantes pelo aplicativo, ter participado de quatro operações que resultaram em mortes. Em duas dessas ações, os agentes são acusados de desviar parte do material apreendido. Nas outras duas, as mensagens revelam que os criminosos foram mortos porque não pagaram propina aos PMs.

O roubo dos R$ 2,7 mil foi constatado por promotores do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), que perceberam que as mensagens enviadas por Guerini no WhatsApp não batiam com o registro de ocorrência do homicídio. No dia 6 de fevereiro, o sargento encaminhou a seu colega Oly Biage duas fotos que mostravam o resultado de uma ocorrência na favela Vila Ruth, em São João de Meriti: numa delas, havia um homem morto, com uma marca de tiro no peito; na outra, uma pistola apoiada num banco. Em seguida, Guerini contou que sua equipe conseguiu apreender uma “mesa de drogas” e escreveu que, no local, também “tinha 2.7”, seguido de um “$” — referência, clara à quantia de R$ 2,7 mil encontrada pelos agentes com o homem.


O dinheiro, entretanto, não foi entregue na delegacia por Guerini e seus colegas naquele dia. O registro de ocorrência 861-00133/2020 da Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF) mostra que os PMs afirmaram só terem encontrado drogas e uma pistola com Felipe da Silva Ross, o homem morto na ocasião. Segundo a denúncia apresentada pelo MPRJ em maio passado contra Guerini e mais 12 policiais, os PMs “desviaram em proveito próprio, a quantia de R$ 2.700”. Também estavam na ação e são acusados do crime os sargentos Mário Paiva Saraiva, Fabiano de Oliveira Salgado e Thiago Santos Cardoso e o subtenente Antônio Carlos dos Santos Alves — todos lotados, à época, no serviço reservado (a P2) do 21º BPM.


Mensagens mostram que traficante foi morto porque não pagou propina
 

No final da conversa, o sargento Biage, interlocutor de Guerini, parabenizou o colega pela ocorrência e ainda deu uma dica: “Isso aí, moleque, isso aí! Outra favela boa que você vai gostar: Favela da Linha, mané. Boa de trabalhar também, entendeu? A gente falava que lá era o shopping, mané. Quando queria fazer um saque rápido, ia lá”, contou, num áudio.


Com base nas mensagens, Guerini foi preso em maio passado durante a Operação Mercenários, que teve como alvo um grupo de PMs acusados de integrar uma organização criminosa envolvida numa série de crimes na Baixada Fluminense — entre eles, corrupção, sequestro, extorsão e tortura. O tenente-coronel André Araújo, comandante do 21º BPM na época dos crimes, foi alvo de mandados de busca e apreensão no dia da operação, mas não chegou a ser denunciado. O celular de Guerini havia sido apreendido pelo Gaeco em 2020, quando o sargento foi acusado de integrar uma milícia em Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio.

A operação que culminou no desvio dos R$ 2,7 mil também registrou a morte de um inocente. Naquele mesmo dia, o adolescente Luiz Antônio de Souza Ferreira da Silva, de 14 anos, estava voltando para casa, na Vila Ruth, depois de uma consulta com uma psicóloga quando foi baleado na perna. O compromisso fazia parte do processo de adoção pelo qual o jovem estava passando após sua mãe morrer vítima de um câncer dois anos antes. Moradores do local ouvidos pelo GLOBO contam que a patrulha de Guerini entrou atirando na favela por volta das 16h, quando as ruas ainda estavam cheias de crianças e houve confronto com traficantes da região. Como eram lotados na P2, os PMs usavam uma viatura descaracterizada. A dona de casa Tamires dos Santos Silva, de 23 anos, que acompanhou Luiz Antônio na consulta e queria adotá-lo, acusou os PMs de negar socorro ao jovem.


Foto do material apresentado na delegacia pelos PMs; não havia dinheiro
 

— Eu não vi de onde veio o tiro. Mas logo depois que ele foi atingido, passou um carro normal, sem identificação, com PMs fardados dentro. Pedi ajuda para eles. Mas eles não se importaram. Quem me ajudou foram os moradores em volta — disse Tamires ao GLOBO, depois do enterro do jovem, dois dias depois da operação.

Outra troca de mensagens encontrada no celular de Guerini mostra que a equipe do sargento também desviava material apreendido em operações para pagar pelo “serviço” de informantes. No dia 27 de fevereiro de 2020, Cláudio Gonçalves Neto, o Kalunga, identificado pelo Gaeco como informante da patrulha, passou a Guerini dados sobre uma boca de fumo numa favela de São João de Meriti. Num áudio enviado depois das 21h, Kalunga disse que os criminosos “estão de casacão”, de “jaqueta escura” e que “o de bonezinho preto, do outro lado, tá com radinho na mão e deve tá de arma também”.

Duas horas depois, o informante voltou a fazer contato, perguntou se a operação “deu bom” e disse que estava esperando os policiais ao lado do batalhão. Guerini escreveu “Deu bom!!” e enviou uma foto de um homem baleado no rosto para Kalunga. Por volta de 1h da madrugada, o informante termina a conversa agradecendo o PM pelo presente que a patrulha lhe deu: “Boa noite aí, brigadão, hein! Celular lindão, novinho. Vou tomar cuidado. Amanhã cedo eu vou levar numa loja aqui perto de casa e vou pedir para o cara desbloquear ele e vai botar o chip desse aqui lá”, disse, num áudio. O registro de ocorrência do homicídio mostra que, naquele dia, os agentes só entregaram uma pistola na DHBF.

A investigação também comprovou que Guerini e seus colegas de farda faziam, regularmente, “incursões policiais que tinham o nítido objetivo de matar traficantes que não realizavam o pagamento de propina”. Uma dessas operações aconteceu em 26 de março de 2020 no Morro do Embaixador, também em Meriti. Na ocasião, o sargento encaminhou a um amigo, o também PM Wiliam de Souza Noronha fotos de um homem morto, com uma marca de tiro nas costas, seguidas do comentário: “Aí compadre, menos um”. “Bala no rabo deles”, vibrou Noronha ao ver as imagens. Em seguida, o próprio Guerini contou que o criminoso só foi morto porque se recusou a pagar propina aos agentes: “Pq esse falou se a barca quiser $ vem buscar”.

Noronha concordou com o desfecho. “É desse jeito, colocar esse fdp no lugar dele”, escreveu. Guerini explicou que, após o homicídio, os traficantes já haviam procurado os policiais para tentar fechar um acordo de pagamento de propina: “Já querem papo, agora já falamos que vamos só matar”. Noronha, por fim, aconselhou o amigo a fazer mais operações na favela para aumentar o valor acordado com os criminosos — “Se fizer mais ocorrência aí, vai aumentar o papo”. De acordo com a denúncia do MP, a troca de mensagens resume o modo de atuar da quadrilha de PMs: “quando o criminoso se recusa a pagar a propina exigida, o grupo age cometendo homicídios”.


Na delegacia, ao registrarem o caso, os agentes afirmaram que foram atacados e revidaram. A mesma versão foi compartilhada pelo perfil do 21º BPM nas redes sociais. Segundo o relato do batalhão, os policiais estavam fazendo “reconhecimento de local” quando foram atacados a tiros e revidaram “de forma moderada”. Com o homem morto, foi apreendida uma pistola. A postagem é acompanhada das hashtags #o21nãopara e #avante21. Para o MPRJ, no entanto, os homicídios cometidos pelos PMs “serviam de recado aos demais criminosos e eram dissimulados na delegacia com a falsa narrativa de auto de resistência” — ou seja, execuções eram registradas como mortes em confronto.


Registro de ocorrência mostra que PMs não apresentaram celular na delegacia
 

Homicídios em operações policiais

Homicídios em operações policiais explodiram em São João de Meriti de fevereiro a julho de 2020, período em que Guerini e seus colegas serviram no 21º BPM: foram 37 homicídios decorrentes de ações da polícia, quase o dobro das 22 mortes registradas no mesmo período do ano anterior e maior número registrado nesse intervalo de meses desde o início da série histórica do estado, em 2013. O curioso é que o aumento das mortes — em plena pandemia de Covid-19 — não teve impacto nos dados de produtividade policial na área do batalhão. Em comparação ao ano anterior, despencaram os números de apreensões de drogas (31% a menos), fuzis (46%) e pistolas (22%). Também caíram, na região, as prisões em flagrante (37%) e o cumprimentos de mandados de prisão (42%).

Em 14 de abril, novamente o sargento Guerini enviou para seu amigo Wiliam Noronha uma foto de um homem morto e comentou que o tráfico “já chamou para ideia” — ou seja, procurou os policiais para acertar o pagamento de propina e evitar novas operações. Noronha aconselhou o amigo a exigir um valor alto dos criminosos: “Joga lá no alto”.

Questionados sobre as investigações dos homicídios mencionados nas mensagens, tanto a Polícia Civil quanto o Ministério Público afirmaram que as investigações de todos os casos citados ainda estão em andamento. Já a PM afirmou, por meio de nota, que a Corregedoria da corporação “instaurou Inquérito Policial Militar (IPM) para verificar as denúncias apontadas pelo Ministério Público no contexto da Operação Mercenários e há Procedimentos Administrativos Disciplinares (PAD) para verificar a permanência ou exclusão dos policiais”. O GLOBO não conseguiu contato com as defesas dos policiais.

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